Educação e Direitos Humanos 

O olhar desatento à educação infantil no Brasil

É imprescindível para o desenvolvimento de uma criança, a alfabetização em sua idade correta e o incentivo à leitura, para que se desenvolvam conscientes, e com um determinado olhar crítico na sociedade em que vive.

Reportagem por Amanda Alves e Letícia Lima

Para que ocorra esse desenvolvimento de forma correta, é necessário a união entre comunidade e escola. A criança alfabetizada entre os 5 e 8 anos de idade, começa a lidar com as questões sociais, e a leitura auxilia a compreender suas emoções durante seu desenvolvimento cognitivo. Cada vez mais crianças estão sendo alfabetizadas tardiamente, resultando em um possível analfabetismo funcional, ou seja, pessoas que leem, mas não sabem interpretar o descrito, além da dificuldades com a ortografia da língua portuguesa.

Entrevistado Thiago Pereira, lendo seu gibi favorito

Thiago Pereira, 7 anos , aluno da 2ª série, na Escola Estadual General do Exército Vicente de Paulo Dale Coutinho, localizada no município do Grajaú, zona sul de SP. Aprendeu a ler este ano, e que ainda não sabe escrever fluentemente, somente algumas palavras, e a escola não fornece caderno de caligrafia, a dificuldade aumenta quando tenta escrever de letra de ‘mão’, precisando sempre do auxílio da professora, seus colegas de classe compartilham das mesmas dificuldades.

Entrevistado Thiago Pereira, segurando sua coleção de gibis

“A professora só nos levou uma vez na biblioteca esse ano, diferente do ano passado”, contou Thiago.

Em conversa com sua mãe Kátia Pereira, 39 anos. Aconteceu um evento de feira-literária, onde comprou um livro que o Thiago gosta muito, chama-se “Poesia mágica” do autor Paulo Netho e ilustrações de Patricia Girotto.

“Eu o incentivo da forma que posso, pois trabalho todos os dias, e divido o tempo entre ele e a bebê de 11 meses de idade”, conta Kátia.

Thiago tem paixão por gibis, em especial os da turma da Mônica, do autor Maurício de Souza. Acredita que as histórias são mais engraçadas e interativas, seus personagens favoritos são Cascão e Cebolinha. Completa, “Meu pai Jailson, que me trás os gibis, e prefiro ler do que ver televisão”.

Entramos em contato com a escola em que Thiago estuda, conversamos com a Coordenadora Marilene. Ela se recusou a falar sobre o assunto, e informou que a diretora da escola está de férias sem previsão de retorno.

 Educação e Direitos Humanos 

A educação do nosso futuro

Telma Gomes Zani, professora há 25 anos, é formada em Magistério e Letras pela UNIP, Matemática pela Unopar e outros cursos complementares na área da educação. Formou-se contadora de histórias, na ONG Brasil Campeão. Explica o método e a atual situação do ensino fundamental das escolas públicas da periferia de SP.

Reportagem por Rubens Rezende e Ace Valdez

Na cidade de São Paulo existem 3.017 escolas de ensino fundamental, 72.656 docentes registrados, e certa de 1.332.605 alunos matriculados. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE-2017/2015).

Varia-se de escola para escola, o acesso aos livros, algumas contam  com biblioteca, feiras culturais, incentivo à leitura, e em contrapartida as escolas que pouco fornecem o acesso à sala de estudos.

“Os alunos tem que pagar pelos livros, e a maioria não tem como. Os professores não tem porte para comprar os livros para essas crianças e trazer para sala de aula”, explica Telma.

As crianças que estão no nível de “leitor iniciante” preferem gibis, quadrinhos como o famoso “Homem-Aranha” da Marvel, são de fácil leitura, e os textos contém  imagens que ajudam as crianças a assimilar palavras com movimentos corporais, além da leitura em sala de aula, com o professor que auxilia no esclarecimento das dúvidas.

Professora Telma dando aula

“Na realidade são eles mesmos que não querem crescer. Eles não querem ter a responsabilidade, eles querem viver na fantasia e isso é muito importante de trabalhar com eles. Então eles leem e a gente conversa sobre isso depois, sobre a parte crítica”, conta Telma.

A leitura crítica é o problema de maior foco, entre os analfabetos funcionais. Três em cada dez jovens e adultos de 15 à 64 anos no Brasil, são considerados analfabetos funcionais, segundo dados do Indicador do Alfabetismo Funcional (Inaf-2018).

Aluna do reforço lendo um livro infantil

“Toda a criança que não consegue ler, isso é um alerta, tanto para os pais, como para os professores, ela sofreu alguma coisa, ela leu alguma coisa errada e os amiguinhos deram risada, e o professor não conseguiu contornar a situação. A leitura infantil da pra trabalharmos bem, a criança tem uma facilidade boa para aprender, desde que trabalhemos com eles desde pequenininhos. Na escola elas têm vergonha de ler muitas vezes, por causa dos amigos, quando se lê errado a primeira vez, mas, vendo que todos tem dificuldade, eles começam a se soltar”, conclui Telma.

O Brasil é o 63° colocado em um ranking de 70 países, no quesito  leitura, segundo o Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA).

Aluno do reforço, mostrando o livro “Emília no País da Gramática”, Monteiro Lobato